Tabanka: ritmo, resistência e herança de um povo
A tabanka, uma das mais expressivas manifestações culturais de Cabo Verde, teve origem nas zonas rurais da ilha de Santiago por volta do século XVI, assumindo inicialmente a forma de uma espécie de irmandade ou associação de socorros mútuos entre as comunidades escravizadas.
De acordo com o investigador Eutrópio Lima da Cruz, trata-se essencialmente de “uma procissão dançada que mobiliza uma vila inteira ou um grupo de pessoas unidas para a vida e para a morte”, promovendo um profundo sentimento de solidariedade coletiva e organização social, mesmo mantendo o seu caráter festivo.
Raízes africanas e transformação nas ilhas
A palavra tabanka tem origem na Guiné-Bissau, região de onde chegaram as primeiras levas de escravos para Cabo Verde. Inicialmente associada aos aldeamentos guineenses, o termo foi integrado no vocabulário crioulo, passando a designar as festividades organizadas pelos escravos nas ilhas.
Estas celebrações ganharam força ao longo do tempo, tornando-se espaços de afirmação cultural e de resistência simbólica à estrutura social vigente.
Ligação à celebração de Santa Cruz e aos santos populares
Segundo os historiadores José Maria Semedo e Maria R. Turano, o fenómeno da tabanka no século XVIII está ligado ao dia 3 de maio, data em que se celebrava Santa Cruz dos escravos. Nesse dia, os escravizados recebiam liberdade temporária e aproveitavam o momento para realizar festejos que misturavam teatro de rua, crítica social, religiosidade cristã e práticas de origem africana.
Com o tempo, o período festivo estendeu-se até junho, passando a integrar também as celebrações de São João, num processo de fusão entre tradições africanas e o calendário religioso católico.
Encontro entre o catolicismo e as religiões africanas
A interpenetração entre a Igreja Católica e as práticas africanas acabou por reduzir barreiras culturais. Conforme explicam Maria Emília dos Santos e Maria João Soares na História Geral de Cabo Verde, esse fenómeno ocorreu de forma natural, influenciado pelo ciclo astral e pelas festas do solstício de verão, já presentes na Europa e adaptadas à realidade cabo-verdiana.
Mesmo com algumas reservas iniciais, o clero local — também crioulizado e com origem rural — mostrou-se mais próximo destas práticas, permitindo a sua continuidade. Os próprios escravizados, convertidos ao catolicismo, passaram a construir capelas que se tornaram centros das festividades.
Repressão colonial e resistência
Com o crescimento e a forte carga simbólica da tabanka, a administração colonial portuguesa passou a encarar a manifestação como uma possível ameaça, temendo insurreições.
No final do século XIX surgiram as primeiras legislações que proibiam a tabanka, empurrando-a para a clandestinidade, sobretudo nos centros urbanos. A Igreja Católica também manifestou reservas, por identificar elementos considerados animistas.
Apesar disso, a tradição resistiu.
Da independência à valorização cultural
Após a independência de Cabo Verde, investigadores e grupos culturais iniciaram um processo de resgate desta manifestação, que entretanto tinha perdido algumas das suas práticas originais devido às transformações sociais.
A candidatura da tabanka a Património Cultural Imaterial trouxe novos estudos e visibilidade, mesmo diante da escassez de documentação histórica.
Um símbolo vivo da identidade nacional
Hoje, a tabanka permanece como:
- uma expressão de solidariedade comunitária
- um testemunho da resistência dos antepassados
- um dos mais autênticos símbolos da cultura cabo-verdiana
Mais do que uma festa, continua a ser uma bandeira da luta pela preservação da memória e da identidade do povo das ilhas.
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